terça-feira, 22 de maio de 2012

Invenção nossa


 Arte: Anelise Sabino

Isso de misturar
azeite, mel e mostarda
enfeite, pedra e palavra
Isso de escrever
Isso de fazer salada
Isso de banho e tosa
tudo invenção nossa
Um modo de fazer crível
a viagem no quarto
a bonança na tempestade
e a liberdade no vício.

Ana Santana – in Em nome da pele

* Isso é a poesia de Ana Santana: poetisa, professora (UNP), doutora em Literatura Comparada (UFRN) e prefaciadora do livro "Maria Clara: uniVersos femininos" (LivroPronto: 2010). Para conhecer mais sobre a autora, visitem o debate literário no Novidades & Velharias

domingo, 20 de maio de 2012

Entre o que vejo e o que digo



Arte: Edward Henry Potthast
Along the Mystic River

"Entre o que vejo e o que digo,
entre o que digo e o que calo,
entre o que calo e o que sonho,
entre o que sonho e o que esqueço,
a poesia.

Desliza
entre o sim e o não:
diz
o que calo,
cala
o que digo,
sonha
o que esqueço.

Não é um dizer:
é um fazer.
É um fazer
que é um dizer.

A poesia
se diz e se ouve:
é real.
E, apenas digo
é real,
se dissipa.
Será assim mais real?

Ideia palpável,
palavra
impalpável:
a poesia
vai e vem
entre o que é
e o que não é.
Tece reflexos
e os destece.

A poesia
semeia olhos na página,
semeia palavras nos olhos.

Os olhos falam,
as palavras olham,
os olhares pensam.

Ouvir
os pensamentos,
ver
o que dizemos,
tocar
o corpo da idéia.
Os olhos
se fecham,
as palavras se abrem. "

Octavio Paz
Tradução: Anderson Braga Horta

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Poetar


                                                                   Arte Rafal Olbinski
O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas

invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa

sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa é fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós.

Ferreira Gullar

sábado, 12 de maio de 2012

das Mães


Arte: Francisco Metrass

Mulher, como te chamas? - Não sei.
Quando nasceste, tua origem? - Não sei.
Por que cavaste um buraco na terra? - Não sei.
Há quanto tempo estás aqui escondida? - Não sei.
Por que mordeste o meu anular? - Não sei.
Sabes, não te faremos mal nenhum. - Não sei.
De que lado estás? - Não sei.
É tempo de guerra, tens de escolher. - Não sei.
Existe ainda a tua aldeia? - Não sei.
E estas criancas, são tuas? - Sim.

Wislawa Szymborska




Wislawa Szymborska - Nasceu em Kórkik, Polônia, 2 de Julho de 1923, foi Prêmio Nobel de Literatura em 1996.

domingo, 6 de maio de 2012

Eterno Retorno - Você viveria sua vida de novo?


Arte: Susan Seddon 

Eterno Retorno
“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!“ Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?”  
Friedrich Nietzsche


Pequeno trecho do filme "Quando Nietzsche chorou"




Leia mais em:

http://fellipeguerrarj.blogspot.com.br/2010/08/eterno-retorno.html

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Perco sempre a medida



Meu coração, coisa de aço

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-te num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida.

Cecília Meireles


terça-feira, 1 de maio de 2012

Que há de ser de mim?


PASSAGEM DAS HORAS
Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(...)

Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.
A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta entrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranquila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta sociedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,
Consanguinidade com o mistério das coisas, choque
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.


Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?
(...)
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


segunda-feira, 30 de abril de 2012

Sinto-me nascido a cada momento


Gerhard Nesvadba

"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar"

Alberto Caeiro / Fernando Pessoa
"O Guardador de Rebanhos"

Meus pensamentos são todos sensações


“Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz."
IX - Guardador de Rebanhos
(Alberto Caeiro)

sábado, 21 de abril de 2012

" As coisas falam por si " Van Gogh


Van Gogh - Auto retrato com chapéu de feltro

"Um louco, Van Gogh? Aquele que soube um dia olhar um rosto humano olhe o autorretrato de Van Gogh, penso naquele com um chapéu de feltro. Pintada por Van Gogh extra lúcido, esta figura de carniceiro ruivo que nos inspeciona e espia, que nos perscruta também com um olho feroz.
Não conheço um só psiquiatra capaz de perscrutar um rosto de homem com uma força tão esmagadora e destrinchá-lo com infalível psicologia.
O olho de Van Gogh é de um grande gênio, porém a maneira como o vejo dissecar-me do fundo da tela em que surgiu não é mais o de um pintor genial neste momento, mas o de um filósofo que jamais encontrei na vida. 
 Não, Sócrates não tinha esse olhar, somente o desgraçado Nietzsche, antes dele, teve talvez este olhar capaz de desnudar a alma, de libertar o corpo da alma, de pôr a nu o corpo do homem, fora dos subterfúgios do espírito.
O olhar de Van Gogh é pendente, fixo, ele é vítreo atrás das pálpebras curtas, das sobrancelhas estreitas e sem nenhuma ruga. É um olhar que penetra direto, transpassa este rosto talhado a faca como uma árvore bem podada.
Mas Van Gogh captou o momento em que a pupila vai vazar no vazio, onde este olhar lançado contra nós como a bomba de um meteoro ganha a cor átona do vazio e do inerte que o preenche. Foi assim que o grande Van Gogh, melhor do que qualquer psiquiatra do mundo, definiu sua doença.
Eu penetro, retomo, inspeciono, penduro, despenduro, minha vida morta não oculta nada, e o nada, afinal, nunca fez mal a ninguém, o que me obriga a retornar para meu interior é esta ausência desoladora que passa e me submerge por alguns momentos, mas vejo claro nela, muito claro, mesmo o que nada sei, e poderia dizer o que há dentro.
Van Gogh tinha razão, podemos viver para o infinito, nos contentar com o infinito, há bastante infinito na terra e nas esferas para saciar mil grandes gênios, e se Van Gogh não logrou satisfazer seu desejo de irradiá-lo durante a vida inteira foi porque a sociedade o proibiu."





Antonin Artaud  em  "Van Gogh - O suicidado da sociedade" (1947)

Antonin Artaud  

Alguns de seus autorretratos:




                                                                                                                                                               
Nos 150 anos de nascimento de Van Gogh, a Editora José  Olympio presta uma homenagem ao pintor e lança Van Gogh, o suicida da sociedade.
Publicado em 1947, alguns meses antes da  morte de  Antonin Artaud, o livro foi acolhido com elogios pela crítica e recebeu o prêmio Sainte-Beuve de ensaios, em janeiro de 1948
Poucos textos de Artaud sugerem como este tal embriaguez, tal irrupção de vida e sensualidade.
A edição inclui ainda  ilustrações das obras que Van Gogh criou. Com tradução do poeta Ferreira Gullar, este pequeno ensaio ganha sabor especial.

Assita nesse link abaixo,  vídeo com as transformações que acontecem através da montagem de várias telas de seus autorretratos:

domingo, 15 de abril de 2012

Os mistérios de Clarice

 

Visão de Clarice Lispector
(Carlos Drummond  de Andrade)


Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.
Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.

Fonte: Memoria Viva



Livro sobre Clarice Lispector só agora chega ao Brasil:

“Clarice Lispector - Figuras da Escrita", que saiu em 2000, com uma tiragem de 500 exemplares, pela editora da Universidade do Minho, em Portugal, tornou-se objeto de culto entre claricianos e só agora chega ao Brasil. (foi lançado no dia 08 de março no Rio).

“Como chegar àquilo a que as palavras mal podem dar expressão?" O enigma que (des)norteia a obra de Clarice Lispector (1920-1977) foi levantado pelo professor e crítico português Carlos Mendes de Sousa ao mergulhar nas profundezas da escritora.


Leia mais em:

sábado, 14 de abril de 2012

Calmaria / Não sei quantas almas tenho




Calmaria (Jota Velloso) / Não Sei Quantas Almas Tenho (citação)(Fernando Pessoa)

"Ê calmaria
melancolia que devora
tempo espicha
o segundo vira hora
Ê calmaria
traz a mágoa e vai-se embora
Quem quer singrar os mares
Sem passar por tempestades
É melhor fincar n’areia
O barco a vela, a vontade
Quem teme a escuridão
Nem cresce ver o brilho
passeando no arco da amplidão
Ê calmaria
Vento vem e leva embora
Meu Deus não me livre disso
não me livre disso, não me livre disso,
Desse risco de tristeza,
desse amor feito por isso
desse rasgo de beleza
Sempre a beira do abismo
Ê calmaria
Vento vem e leva embora
Ê calmaria
Vento vem e leva embora"

"Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem olhei
De tanto ser, só tenho alma. "


“As vezes sou o Deus que traga em mim
e então eu sou o Deus e o crente e a prece,
e a imagem de marfim
em que esse Deus se esquece
as vezes não sou mais que um ateu
o mundo rui ao meu redor,
os meus sentidos oscilam
bandeira rota ao vento
busca um porto longe uma nau desconhecida
e esse é todo o sentido da minha vida.”

Adaptação: Maria Bethânia